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Angelo Castelo

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24
jan

Protesto errado

Postado por Angelo Castelo | 07:33

Prefeitos empossados há 22 dias, estamos ainda em plena safra de
nomeações para cargos de confiança. E o Congresso Nacional, bem mais
atraente do que os pobres municípios, prepara-se para eleger novas
mesas diretoras e, portanto, também preencher novos cargos
comissionados por tempo determinado.

Essa forma de nomeações provoca críticas e protestos, principalmente
dos que não são beneficiados e nem têm parentes contemplados. Pura
bobagem. De nada adianta se protestar contra aquilo que a lei vigente
no país assegura e que a constituição acolhe como justo e certo. As
funções comissionadas são absolutamente legais e só existe uma única
maneira de extingui-las. Seria pela via de uma reforma política e
administrativa, com emendas e ajustes devidamente promovidos pelo
poder legislativo, e adaptados pelos estados e municípios.

Portanto os protestos de hoje estão concentrados nos efeitos quando
deveriam focar as causas que geram essas nomeações. Reclamar que os
políticos nomeiam parentes e amigos é algo inócuo. Se eles não
favorecem parentes irão favorecer outras pessoas, o que em nada altera
o sistema de benefícios ou de privilégios. Tanto faz Severino ou
Matilde. O que importa é se o ato praticado está em plena harmonia com
as normas legais.

O momento para se agir é durante a campanha eleitoral. Votem nas
pessoas que se comprometam com a modernidade da República e exijam que
eles ajam de acordo com o desejo do povo. Caso o povo queira mesmo
essas reformas.  Mas aí é outra história.

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Quem viveu o clima politico e atuou no jornalismo dos anos 70 e 80 deparava-se com uma crônica bipolaridade ideológica esquerda-direita, consequência da guerra fria entre capitalistas e comunistas liderados respectivamente pelos EUA e Uniao Sovietica.  A ditadura dos generais de Exercito instalou-se no Brasil em abril de 1964 contrapondo-se aos movimentos socialistas da época muitos dos quais entusiasmados com o modelo cubano do comandante Fidel Castro, e so terminou em 1988 com a aclamação de uma nova constituição republicana em substituição  que havia sido rasgada 24 anos antes.

A opressão armada para impedir as manifestações oposicionistas e para travar a qualquer custo o surgimento de novas lideranças politicas capazes de fazer sombra ao poder militar, levou toda uma geração de jornalistas – apesar das exceções – a combater tenazmente o regime ditatorial. Nascemos e crescemos no campo profissional com a ideia fixa de que as ideologias eram fundamentais enquanto bases filosóficas de inspiração para o exercício de um governo. A direita era retrógada e violenta. A  esquerda boa e justa. Sem meios termos.

A massa silenciosa parecia solidaria com a esquerda e tanto isso fazia sentido que o núcleo duro do poder central cancelou as eleições pelo voto universal e suspendeu o estado de direito para que a policia politica pudesse realizar suas invasões e seus sequestros sem dar a menor bola para a justiça. Foram anos duros de sangue, suor, lagrimas, avanços e recuos, censuras e exílios. Mas na longa noite que antecederia à atual madrugada brasileira havia também os que praticavam gestos de grandeza e de sabedoria, em ambos os lados. No final da conta restou um precioso aprendizado sobre a natureza e o caráter dos homens principalmente quando eles mudam e passam a representar eventualmente o poder politico.

O ciclo ideológico esquerda-direita terminou com o Seculo XX. Caiu o muro de Berlim, os conceitos de entao viraram entulhos e foram recolhidos pelos caminhões do lixo. Por um lado isso foi muito bom mas por outro lado pode ter sido ruim. O espaço antes ocupado pelas ideologias de massa pode estar sendo ocupado pela gritante alienação das pessoas, subtraindo delas a capacidade social de pensar solidariamente nas grandes questões nacionais e mesmo internacionais.

O pragmatismo de se assegurar a maioria congressual a qualquer preco em detrimento das bases ideológicas de outrora, move os governantes dos nossos dias. Descartam a ideia de obter a aprovação de seus projetos pela via do debate politico em suas respectivas casas legislativas, preferindo alargar as bases parlamentares através da distribuição de ministérios e de cargos de confiança.  Ou seja, congelam indefinidamente as sempre saudáveis praticas do debate local ou nacional, detalhe este com um preco social muito relevante, traduzido pelo tamanho da alienação que provoca dentro e fora do Legislativo.

O homem, a mulher e o jovem que joga embalagens de iogurte pelas janelas do automovel denuncia essa alienação que ja se manifesta por gestos bisonhos tal o rombo na consciência politica coletiva.  A consciência politica e a solidariedade social desenhadas pela recente historia do pensamento brasileiro, estão sendo substituídas pelo consumismo desenfreado e perigosamente estimulado pelos governos.

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12
nov

O Recife em tres tempos

Postado por Angelo Castelo | 03:38

Tivéssemos um prefeito estiloso para o Recife e ele adotaria de cara uma forma avançada de administrar a cidade com três equipes constituídas por pessoas de notáveis saberes em suas respectivas atribuições. Uma equipe para tratar do passado, uma equipe para tratar do presente e uma terceira para tratar do futuro. Todas lastreadas com recursos orçamentários definidos e aprovados segundo os trâmites constitucionais, com metas e organogramas acompanhados online, sem mentiras, sem enrolações e sem subterfúgios.

A população se conectaria numa boa e participaria intensamente de cada etapa dos trabalhos. Nem precisava que a oposição tivesse o trabalho de denunciar atrasos ou desvios. Bastava uma olhada diária no site do município para a gente saber se as coisas estavam ou não em dia. Beleza pura. A equipe do passado teria como meta realizar intervenções no sentido de resgatar o secular patrimônio histórico material e imaterial do Recife, promovendo restaurações e alardeando para as novas gerações sobre as maravilhas que temos e que devemos melhor conhecer para melhor amar e melhor respeitar a nossa cidade.

Outro dia fiz uma enquete com jovens graduandos universitários que se reuniam para comemorar a ida de um deles rumo ao doutorado na Universidade de Paris. Rigorosamente nenhum deles sabia onde ficava a rua Floriano Peixoto, nem a Rua da Palma, nem a Igreja do Rosário dos Pretos. Beco da facada, nem pensar. Capela Dourada jamais e menos ainda o museu de arte sacra da rua do Imperador onde o retrato do inesquecível Fernando Pio esboça um sorriso como se cumprimentasse os que se lembram do Recife que ele tanto soube exaltar.

A equipe do presente cuidaria de manter a cidade limpa e asseada, removeria buracos e fiscalizaria com rigor as varrições e o sistema de recolhimento do lixo. Sua meta prioritária seria a de nos livrar da vergonha de termos ainda, em pleno século 21, os bairros de Santo Antonio com as avenidas Guararapes, Dantas Barreto, São Jose e adjacências, totalmente favelizados e mau cheirosos, mil anos luz distante da dignidade que as confundiam com cenários das antigas cidades européias. Basta comparar as fotos do século 19 e inicio do século 20 com os dias de hoje e haja trabalho para recuperar a cidade.

Já a equipe do futuro se debruçaria em pranchetas para propor obras de vanguarda, anéis viários, alargamento de avenidas, ampliação de áreas verdes, reinventar o Recife onde for possível compatibilizar o antigo e o moderno com fizeram em Londres na década de 80, quando deslocaram as docas e deram novas finalidades aos velhos e agora modernos edifícios. Naquele época tive a oportunidade de escrever um texto advertindo que aquele processo poderia ser aplicado na avenida Jose Estelita, aqui no bairro do Cabanga. Até Batman usou um prédio recuperado em Londres para cenário de um de seus filmes. O arquiteto recifense Moises Agamenon estava comigo num barco pelo rio Tamisa e anotou essas coisas.

Os assessores para o futuro diriam ao prefeito que a velha carcomida Avenida Sul e sua paralela rua Imperial oferecem um espaço perfeito para se construir superquadras iguais às que Lucio Costa fez em Brasília, com jardins e escolas, alargando suas influencias para as bandas do Coque, criando ali uma nova face com muito verde e dignidade para seus felizes habitantes que assim desfrutariam de uma qualidade de vida em paz, com menos violência, com muita segurança e com o conforto e o bem estar que a tecnologia urbana nos oferece como contrapartida da eficiência administrativa e compromissos com o espírito republicano.

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É durante uma campanha eleitoral que os líderes políticos devem
redobrar cuidados para preservar suas biografias, livrando-as de
palavras e atos que não comprometam a desejada coerência, suas
efetivas responsabilidades republicanas e nem os seus vínculos com o
exigido respeito pela democracia, que no nosso caso é fruto de muito
sangue, muitas lágrimas, muita inspiração e muita transpiração.

Estamos fartos de teses que valorizam os elevados interesses
nacionais, mas que se revelam, sempre depois, como bem lembra o
conselheiro Acácio, uma máscara a esconder uma bem disfarçada pequenez
de vaidades e de ambições pessoais. As gerações que antecederam aos
nossos dias colheram muitos exemplos de pessoas que sepultaram suas
biografias por simples destempero e de outras que, inclusive para
surpresa da maioria, cometeram gestos que os eternizam no panteão
popular dos corações e das mentes.

No dia 30 de abril de 1981 o pernambucano Nilo de Souza Coelho era
presidente do Senado quando um grupo de terroristas de direita,
supostamente ligados ou com livre acesso aos arsenais militares,
cerraram as portas do show comemorativo ao Dia do Trabalho, no Rio
Centro, para explodir uma bomba que mataria centenas e talvez milhares
de jovens que lá vibravam com seus ídolos pops. A providência divina
mudou o curso da tragédia e a bomba explodiu no colo de seu condutor,
que se achava a bordo de um automóvel esporte, supostamente à espera
da ordem para colocar o artefato no interior do centro de convenções
do Rio de Janeiro.

Levado por um sentimento de grave responsabilidade pelo cargo que
ocupava o ex-governador Nilo Coelho, que se notabilizou pelo bom humor
e até (para o delírio dos fotógrafos) pela toalha envolta no pescoço
nos antigos carnavais dos bailes dos casados da Estrada dos Remédios,
tomou uma posição histórica. Afirmou que era o presidente do Senado e
não do “senado do meu partido” (que apoiava o governo militar) e
repudiou energicamente o atentado do Rio Centro, num discurso que de
tão emocionante foi também apontado como causa primeira dos problemas
cardíacos que o mataria meses depois. Esse discurso seguido de
entrevistas inundariam a mídia nacional e iriam pousar nas primeiras
paginas dos mais acreditados jornais estrangeiros.

Ser presidente do Senado e não “do senado do meu partido” é mais do
que uma simples frase. É uma lição chave para que os líderes de hoje
reflitam sobre a posição que ocupam levados pela maioria da vontade de
um povo, postos em cadeiras suficientemente elevadas para que
descortinem sua gente como um mosaico único, embora multicor,
precavidos para não cometer injustiças a quem quer que seja e
principalmente aos que um dia os ajudaram a avançar um pouco em seus
sonhos, naturalmente republicanos. O êxito das etapas que sempre virão
depende fundamentalmente da grandeza dos gestos de hoje. Afinal, cabe
à história, sempre ela, tarefa de julgar as biografias de cada um. E o
texto final depende apenas de cada um.

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12
set

Pilates para o cérebro

Postado por Angelo Castelo | 09:50

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Há momentos em que uma campanha eleitoral toma rumos desconcertantes.
Isso é normal e acontece sempre. Em seu horário gratuito na TV os
homens do PT estão acusando o candidato a prefeito do governador
Eduardo Campos, o neófito Geraldo Júlio que dispara nas pesquisas como
franco favorito no Recife, de não saber o valor de uma passagem de
ônibus. Creem os petistas que em não sabendo quanto custa um ticket de
coletivo, uma criatura não pode estar credenciada para gerenciar uma
cidade como o Recife.

Seria o caso de indagar: e quanto custa um quilo de sal ou um pacote
de margarina, ou uma cartela com botões para camisas. Quem assiste a
esse espetáculo da arquibancada, como é o caso desse repórter, fica
imaginando que qualquer preço de qualquer produto de necessidade
básica interfere radicalmente, uma vez majorado, no orçamento de um
trabalhador e de sua família. Quanto menor a faixa salarial mais peso
exercem os alimentos e os transportes num orçamento familiar,
asseguram as lições básicas de economia. Cabe, portanto a um gestor
público, negociar ao extremo para segurar o preço de uma passagem de
ônibus, independentemente de seu atual valor, e fazer o mesmo para o
sal e os botões em escala secundária de prioridade.

Entende-se, numa sociedade organizada, que a macrovisão de um processo
administrativo público é o paradigma por excelência. As projeções por
uma política de transportes de massa eficiente e os projetos urbanos
que contemplem pessoas e não automóveis, por exemplo, exigem muito
mais de um candidato do que seus saberes a respeito do preço de uma
passagem de ônibus ou de um pacote de margarina cujas oscilações de
tarifas e valores certamente batem forte num ambiente de salário
mínimo.

Questionamentos como esse, do ticket de ônibus, dão a entender que os
candidatos do PT montaram uma armadilha para GJ para arranha-lo junto
às classes menos favorecidas que tomam ônibus todos os dias e consomem
horas preciosas de suas vidas no sufoco de coletivos ruins e
calorentos, em transito engarrafado, sem segurança, e tudo porque os
governos, atuais e passados, nunca produziram projetos para solucionar
essa questão de forma digna e definitiva.

O metrô de Lisboa tem mais de um século junto com o de Paris e de
Londres, e embora essas cidades sejam, há muito tempo, territórios de
lazer e de constantes visitas para a maioria ou a totalidade de quem
já governou, de quem governa e de quem vai governar, jamais fomos
contemplados com medidas do mesmo alcance social. Permanecemos
preocupados com a tarifa do busão enquanto a população cresce, abre
espaços para novas ideias e novas lideranças (as pesquisas são uma
prova disso), mas os equívocos se sucedem.

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Coube ao engenheiro francês e revolucionário urbanista Louis Léger Vauthier, nascido em 1815 e morto em 1877, a realização de uma série de obras e de planejamentos até então inéditos na história das grandes cidades brasileiras, como por exemplo a adoção de gabaritos para a altura das calçadas, abertura de grandes corredores de tráfego, construção de pontes, etc. Vauthier chegou ao Recife em 1841 e aqui permaneceu ate 1848 a convite do então prefeito Rego Barros, o conde da Boa Vista.

No exercício de um cargo público de diretor administrador de obras, que chefiou com enérgica autoridade, ele marcou fortemente sua passagem pelo Recife deixando um acervo que se incorporaria ao patrimônio histórico da capital pernambucana tais são os exemplos do Teatro de Santa Izabel, a Ponte de Santa Izabel, a antiga ponte pensil sobre o Capibaribe na localidade de Caxangá (destruida por uma enchente), o mercado de São José e residencias particulares importantes nas margens do Capibaribe como o solar do barão Rodrigues Mendes, atual sede da Academia Pernambucana de Letras, no bairro da Jaqueira.

Na Praça da República, no centro do Recife, existe uma estátua com a sua figura feita pelo escultor pernambucano Abelardo da Hora em 1974 quando o prefeito do Recife era Augusto Lucena. Nela se pode ler um pequeno texto registrado em seu pedestal e assinado pelo sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre, autor da obra “Um engenheiro francês no Recife”, editora Jose Olimpio, publicada em 1960: “Louis Léger Vauthier amou o Recife, cidade a que serviu devotadamente de 1841 a 1848 com a sua ciência, com a sua inteligência e com o seu humanismo. O Recife lhe é grato”.

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03
set

Mania de Controle

Postado por Angelo Castelo | 02:17

Ainda não perdemos a mania de querer controlar o que não pode ser controlado e dar juízo a quem jamais o terá. Exemplo disso é a insistência com que o estado brasileiro discute a questão do financiamento das campanhas eleitorais. Há quem pense que em se adotando o financiamento público, ou seja, em se retirando dinheiro que sai dos nossos impostos para educação, saúde, infraestrutura, etc. para doar aos partidos políticos a cada dois anos eleitorais, estaríamos resolvendo o problema das doações ilícitas. Quem poderia assegurar isso? Que monumental máquina fiscalizadora seria instalada para seguir cada um dos milhares de candidatos, 24 horas por dia, a fim de garantir que nenhum deles iria extrapolar os limites determinados pela lei controladora de gastos? Ou seja, tudo indica que essa opção iria manter acesa ainda mais a hipocrisia reinante no cenário eleitoral onde todo mundo esta cansado de saber que um mandato custa muito dinheiro. Muito alem do que um hipotético financiamento oficial seria capaz de pagar a não ser que os cofres públicos sofram uma sangria desatada. Por que não liberar geral para que cada candidato vá à luta em busca de recursos como alias sempre fazem até hoje e desde algumas décadas. Por que não manter a regra simples e simplória em que cada doador declara quanto deu ao candidato e fim de papo. Se um candidato só conseguiu 100 Reais que o declare. Se outro contabilizar um milhão que o declare com a mesma naturalidade. Há candidatos e candidatos e não seria uma mera regra que os nivelariam numa só faixa de competências, capacitações e prestígio social. Afinal, os melhores serão sempre tratados de forma diferenciada. Querer controlar um processo eleitoral ao ponto de determinar que os candidatos só possam gastar o que retirarem da bolsa da viúva, parece mais uma piada de mau gosto. Já basta de déficit público.

Johnny Mathis and Monica Mancini in Dreamsville

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A biografia de Vicente do Rego Monteiro emerge como exemplo de uma entrega absoluta à pintura. Sua obra consagra formas e conceitos estéticos fortemente peculiares de quem se permitiu a experiências existenciais na Mata Atlântica, dizimada pelos canaviais de Pernambuco, até Montmartre que o acolheu ao lado dos maiores de seu Século.

Mas há um lado de Monteiro pouco conhecido e recentemente resgatado. São as incursões na literatura, pouco divulgadas, embaladas com o mesmo vigor de modernidade que o perpetua como artista contemporâneo e de forte expressão humanista.

O privilégio desse resgate custou uma década de pesquisas, seleção de fotos e de notas organizadas pelos pernambucanos Paulo Bruscky, Edmond Dansot, Jobson Figueiredo e Sylvia Pontual, ordenadas num volume enriquecido por dois CDs e intitulado “Vicente do Rego Monteiro – Poeta, Tipógrafo, Pintor” com o selo da Companhia Editora de Pernambuco e patrocínios do Governo do Estado, Companhia Energética de Pernambuco e Telemar.

Coube a Paulo Bruscky a tarefa de realizar as pesquisas literária, sonora e iconográfica em viagens à Europa junto com o fotógrafo Edmond Dansot, enquanto Luiz Arrais assina o design da capa. O impulso artístico de Vicente do Rego Monteiro é surpreendente.

Ele realizou inclusive programas semanais de rádio em emissoras nas cidades de Grenoble e de Paris que obteriam uma grande audiência e deixariam raras e preciosas recordações prensadas em discos de vinil com edições praticamente domésticas, em geral meia dúzia de unidades para amigos próximos e prateleiras de arquivos radiofônicos franceses.

As capas desses discos eram produzidas com o requinte gráfico permitido pela época, nos anos de 1956 a 1962, quando a França esquecia os traumas da guerra e a Europa oscilava da esperança eufórica ao pessimismo do muro de Berlim. Alguns desses exemplares foram transportados como preciosidades para o Museu do Estado de Pernambuco e outras permanecem no Museu Geo-Charles, na França.

Trata-se da série Vox Poética da Discotheque Auteurs Contemporains onde estão gravados poemas e textos da miscigenação cultural que fala, para ouvidos europeus, de casas de farinhas e cantigas de tecelãs nordestinas em pleno coração da França. O perfeccionismo do escritor Paulo Bruscky proporciona uma visão holística da singular personalidade de Vicente do Rego Monteiro com poemas, cartas e frases por certo definitivas: “A pintura é a filosofia do desenho e da cor; a escultura a da forma. A poesia é a filosofia do abstrato”. Em edição bilíngüe francês-português, o volume de 555 páginas é uma fonte de rara riqueza para o acervo bibliográfico dos maiores e melhores brasileiros.

Vicente do Rego Monteiro é uma referência do modernismo brasileiro e seu talento fica comprovado desde muito cedo, ao expor suas obras na Semana de Arte Moderna, em 1922. Ele nasceu no Recife no dia 19 de Dezembro de 1899. Aos nove anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi na cidade maravilhosa, então capital do Brasil, que ele se iniciou no mundo das artes sempre muito atento para os trabalhos de sua irmã, Fédora, aluna de Eliseu Visconti e Zeferino Costa.

A escritora Maria Luiza Guarnieri Atik, da Universidade Mackenzie, é também autora de outro primoroso trabalho sobre o artista pernambucano em cujas páginas ela realça a vivência de Vicente em Paris, entre 1911 e 1914, fase onde ele foi atento aluno na Academia Julien e na academia Colarossi. Nessa ocasião ele freqüentava os ateliês onde assistia às aulas de desenho, pintura e escultura, visitava museus e marcava presença em movimentos de vanguarda.

Em 1913, com apenas 14 anos, Vicente do Rego Monteiro expôs pela primeira vez um quadro e uma escultura no Salon dês Independants. Em 1918 exibiu no Recife, na Galeria Elegante, uma escultura sem título, conhecida como cabeça do Sr. Sadar. Em 1920 suas aquarelas com motivos indígenas foram expostas na Livraria Moderna, de Jacinto Silva, em São Paulo. Ele foi reconhecido como um pintor da École de Paris, mas não se desligou do Brasil. Estava em Paris quando surgiu o movimento modernista, em fevereiro de 1922, ano que marcou também sua aproximação com Gilberto Freyre, que vivia nos Estados Unidos. De Paris eles foram para a Alemanha numa viagem de descobertas do expressionismo em artes plásticas e teatro.

O Museu de Pernambuco e galerias privadas como a Ranulpho, no Recife Antigo, exibem obras de Vicente do Rego Monteiro.

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24
ago

(*)Saudável utopia

Postado por Angelo Castelo | 03:28

Encontrar uma mensagem ou frase que sintetize intenções e ao mesmo
tempo sensibilize mentes e corações dos que votam e formam opinião, é
algo dificílimo e muito rarefeito na literatura política. A frase
definitiva que impõe o imperativo “vote em mim” de forma eficiente e
definitiva com pouca ou nenhuma reação, é o sonho dourado dos
candidatos. Uma saudável utopia que pode ser explorada através da
racionalidade muitas vezes inédita numa campanha eleitoral, e até
mesmo abrir espaços para inovações.

Tome-se como possibilidade para se praticar essa utopia as chamadas
regiões metropolitanas do Brasil. São conglomerados urbanos muito
densos separados politicamente por fronteiras municipais secas, e
praticamente integrados como num único bloco urbano.  Tudo nelas é
comum. Desde os hábitos de se assistir diariamente aos lixos
veiculados pelas TVs até as dificuldades de transporte, de água
encanada, de violência, poluição multifacetada e insegurança,
iluminação pública, falta de parques e jardins, escolas públicas mal
tratadas e um rosário de déficits que não caberiam nem ficariam bem
nesse texto.

As bases da concepção dos conceitos de região metropolitana pretendem
ajustar esses municípios, entrelaçados e condenados em bloco a um
mesmo futuro, a um plano diretor comum de gestão pública capaz de
assegurar a extensão de medidas prioritárias em benefício de todo o
conjunto. Ou seja, de nada adianta tentar se equacionar as graves
questões de mobilidade ou transito de uma capital geminada a uma
região metropolitana, nem propor um plano de abastecimento de água ou
serviço de saneamento, se o projeto não se estender com a mesma
viabilidade aos demais vizinhos municípios. A desordem da maioria não
permite e até cria obstáculo complicado para se manter a ordem numa
minoria territorial. Ninguém vive bem quando convive ao lado com a
desordem e a infelicidade urbana.

Essa constatação cria possibilidades nunca exploradas pelos partidos
políticos numa campanha eleitoral. Se um partido apresenta candidatos
com sua sigla para todos os municípios de uma região metropolitana,
por que não apresenta-los como potenciais gestores de um plano único
de ação administrativa que contemple e estenda resultados comuns para
todos os mesmos municípios que gravitam em torno da capital e padecem
das mesmas deficiências. De que adianta se ter uma escola pública de
excelência numa capital se há uma escola pública sucateada a dez
minutos dali.

A integração administrativa pela via dos partidos alem de
democraticamente estimulante sugere também a elevação comum da
autoestima de toda uma população metropolitana e serve de tema para
uma boa campanha eleitoral, diferente e inovadora.

(*)em homenagem ao saudoso jornalista Duda Guenes, grande apologista da utopia.

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